Descendentes de Antônio Carvalho Pereira

Info. Históricas


Dr. Wilson Teixeira Beraldo

Prof. Wilson Teixeira Beraldo, um dos grandes cientistas e professores de nossa Universidade, nos deixou rumo à eternidade, em 29 de julho de 1998. Nasceu em Silvianópolis, no sul de Minas Gerais, em 20 de abril de 1917, filho de Júlio Corrêa Beraldo e Austerlina Teixeira Beraldo. Casou-se com D. Isaura, tendo o casal duas filhas, Heloísa e Silvia e três netas.
Ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte, em 1938, tendo concluído o curso médico em 1943. Nos primeiros tempos, como acadêmico de medicina, foi atraído pela forte personalidade do Prof. Baeta Vianna, tendo trabalhado sob a orientação do Prof. Baeta, inicialmente com monitor (1940) e depois como assistente voluntário (1943).
Como não havia condições de ser contratado pela Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, Beraldo se transferiu para São Paulo em 1944, da mesma forma como o fizeram outros discípulos de Baeta Vianna em épocas diferentes. Em 1944, foi contratado como assistente de química fisiológica da Escola Paulista de Medicina, indicado pelo Prof. Leal Prado. No ano seguinte, foi contratado como assistente de Fisiologia da Faculdade de Medicina da USP, em regime de tempo integral.
A partir de 1946, começou a trabalhar com o eminente cientista Prof. Maurício Rocha e Silva, no Instituto Biológico de São Paulo, tendo publicado excelentes trabalhos sobre histamina, anti-histamínicos e interação droga-receptor. Em 1949, Rocha e Silva, Beraldo e Rosenfeld fizeram a descoberta da bradicinina, um dos marcos da ciência brasileira. O trabalho foi publicado, em português, no primeiro número da revista Ciência e Cultura (1:32-35, 1949) e, em forma definitiva, no American Journal of Physiology (vol. 156:261-273, 1949). Além disso, realizou muitas investigações na área da imunologia e alergia, relacionadas com mastócitos e histamina.
Em 1958, Beraldo fez concurso par livre-docente de Fisiologia na USP, tendo permanecido em São Paulo até 1959.Em dezembro de 1959, deveria ocorrer a aposentadoria, por motivo de idade, do professor Octávio Coelho de Magalhães, catedrático de Fisiologia na Faculdade de Medicina da UFMG. Para substituí-lo, o Prof. Baeta Vianna indicou à Faculdade de Medicina o nome do Prof. Beraldo, seu discípulo. A partir de 1960, como catedrático interino, foi atraindo jovens elementos para o Departamento de Fisiologia da Faculdade de Medicina. Em 1962, após brilhante concurso de títulos e provas, Beraldo conseguiu a cátedra de Fisiologia da Faculdade de Medicina.
O grande interesse de Beraldo pelo desenvolvimento da Ciência fez com que dinamizasse as atividades da Sociedade de Biologia de Minas Gerais, que passava por longo período de marasmo, até sua volta a Belo Horizonte. Foi eleito presidente da Sociedade em 1962. A partir da vinda de Beraldo, a Sociedade passou a ser reunir uma vez por mês, com apresentação de trabalhos sobre todas as áreas das ciências biológicas, o que foi também muito benéfico para a futura organização do Instituto de Ciências Biológicas, anos mais tarde.
Uma das qualidades de Beraldo era o obstinação. Resolveu escrever um livro de fisiologia, como muitos outros de seus colegas, no passado. Convocou sues discípulos para ajudá-lo e, em pouco tempo, o primeiro livro de fisiologia escrito por brasileiros e abordando todos os sistemas foi publicado em 1968-1970.
Com a reforma universitária e a reunião de todos os grupos de fisiologia de Belo Horizonte em um mesmo departamento, no Instituto de Ciências Biológicas em 1968, o trabalho de Beraldo foi excepcional, principalmente nos primeiros tempos de consolidação do grupo. Nessa época, pudemos observar as grandes qualidades humanas do mestre Beraldo: a paciência, o obstinação, a fidalguia, o espírito da sacrifício, a bondade, o pendor para a conciliação, a retidão de caráter, a capacidade de perdoar ofensas, tudo isto realizado suavemente, com a finalidade de cumprir sua missão de mestre, cientista e chefe de escola.
Em 1973-1974, organizou o curso de pós-graduação em fisiologia no ICB, hoje Curso de Pós-graduação em Fisiologia e Farmacologia, um dos melhores do país, de acordo com os critérios da CAPES.
A reunião de departamentos afins no mesmo instituto (ICB) permitiu a Beraldo intensificar suas pesquisas, aglutinando a seu redor um grande número de colegas de outros departamentos, tendo publicado diversos artigos em revistas internacionais em colaboração com dezenas de colegas.
A qualidade da obra científica de Beraldo pode ser comprovada pela repercussão internacional de seus trabalhos, com o atesta a citação em mais de 150 artigos publicados em livros, teses e revistas internacionais.Como vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), assumiu a presidência em situação dramática, por todos os conhecida, tendo desempenho com ponderação e dignidade a difícil tarefa que lhe foi conferida.
Beraldo veio de São Paulo em 1960, como já dissemos anteriormente, contratado para substituir o Prof. Octavio Magalhães, aposentado em dezembro de 1959. Logo após assumir interinamente a cátedra, teve pelo velho mestre atitudes de carinho, respeito, dedicação. Insistiu com o Prof. Magalhães para que permanecesse no amplo escritório da chefia do departamento, onde havia fotografias de seus mestres, Oswaldo Cruz, Carlos Chagas e Ezequiel Dias penduradas nas paredes. Conservou o telefone ao lado do professor Magalhães. Enfim, ao mestre que aposentava por idade, dispensou apoio e carinho, fazendo com que continuasse vindo ao laboratório diariamente, apesar de aposentado e doente.Há cerca de onze anos, aposentou-se por ter atingido a idade de 70 anos. Recebeu de seus colegas e funcionários do Departamento de Fisiologia e Biofísica a mesma atenção e carinho que havia devotado ao Prof. Magalhães. Continuou em sua sala, trabalhando diariamente, apesar de aposentado.
Outra qualidade humana de Beraldo era a modéstia. Apesar de conhecido internacionalmente pelas suas pesquisas no campo de polipeptídeos vasoativos, Beraldo continuou o mesmo modesto do início de sua carreira.
Apesar da modéstia, recebeu muitas provas de reconhecimento durante sua vida, como usa eleição para membro Titular da Academia Brasileira de Ciências, sua escolha como Prof. Emérito da Universidade Federal de Minas Gerais e sua admissão na Ordem Nacional do Mérito Científico.
Amante da música clássica, reunia-se freqüentemente com amigos para ouvir Bach, Mozart, Haydn e outros gênios da música. É importante realçar, também, sua grande admiração pela obra literária de Guimarães Rosa.
Para concluir, gostaria de dizer que o Prof. Beraldo foi um excelente chefe de família, seja com esposo de D. Isaura, já falecida, seja como pai de Heloisa e Silvia, sogro de Oswaldo e Rafael e avô de Marina, Maria e Ana.
Por tudo o que acabo de dizer, julgo que constituiu uma honra para todos nós, viver na mesma época, na mesma cidade e na mesma Universidade em que viveu e trabalhou o professor Wilson Teixeira Beraldo.